As Cidades somos nós


Desde que as populações humanas deixaram de ser recolectores-caçadores e se fixaram, que os agregados populacionais desempenham um papel fundamental no desenvolvimento da espécie humana na sua vertente social, política e económica. As cidades são a manifestação dessa realidade: as cidades somos nós, os habitantes que nelas vivem, se relacionam e se agrupam consoante os seus interesses, tendo em conta a morfologia e geografia de cada.

A tendência para as populações se fixarem em cidades tem vindo a aumentar ao longo da história, com uma aceleração crescente cada vez mais evidente desde a revolução industrial, ao ponto de ser uma das forças que vai continuar a moldar a sociedade e o planeta Terra nas próximas décadas. Em 1800 apenas 4% da população norte americana vivia em cidades. Actualmente esse número ronda os 80%. Estima-se que em 2050, cerca de 75% da população mundial viverá em cidades, quando em 2006 era de cerca de 50%. Para contextualizar, esta evolução significa que a nível mundial cerca de 1,2 milhões de pessoas por semana se transferem para uma cidade!

As cidades são redes sociais complexas que apresentam características e propriedades semelhantes, independentemente da sua localização e morfologia. São extremamente resilientes e têm resistido a pandemias, assaltos e pilhagens, fogos devastadores, tremores de terra violentos como o de 1755 em Lisboa e mesmo a ataques nucleares. Roma, Londres, Paris, Istambul, Pequim, Xangai, Tóquio, todas existem há muitos séculos. Só mesmo quando há uma alteração radical do meio ambiente é que os seus habitantes as abandonam.

A razão desta resiliência reside no facto de as cidades funcionarem como “atractores” da criatividade, da inovação, da geração de riqueza – são responsáveis por 80% do GDP a nível mundial. No entanto, há o reverso da medalha porque as cidades também são as principais responsáveis pela poluição de terra, mar e ar, apresentam uma maior taxa de criminalidade, maior prevalência de doenças, etc. Também as cidades não escapam à segunda lei da termodinâmica!

Exactamente por serem uma rede complexa, as cidades apresentam uma “matemática” própria, independentemente da cultura e raça de quem as habitam, da sua localização e do seu desenvolvimento relativo. Constata-se que duplicando a dimensão da cidade, mais que duplica em cerca de 15%, o rendimento, o nível de inovação, o número de pessoas criativas, o número de polícias, a taxa de criminalidade, o número de casos de doença, o nível de poluição, o número de bombas de abastecimento combustível, a rede viária, as redes eléctricas.

A importância das cidades e o seu crescimento a um ritmo acelerado, quer pelo aumento da sua população, quer pelo aparecimento de novas – a titulo de exemplo, estima-se que até 2050 surgirão na China cerca de 300 novas cidades com mais de 20 milhões de habitantes, faz delas um dos principais desafios que se colocam à humanidade nas próximas décadas mas também uma enorme oportunidade. As grandes cidades mundiais acabam por estender o seu grau de influência geográfica que vai muito para além do espaço físico que ocupam, criando regiões metropolitanas que englobam várias cidades e que eliminam as fronteiras políticas dos países. As conexões que estabelecem entre elas através de infra-estruturas físicas, como redes viárias, ferroviárias, oleodutos e de comunicações que suportam, respectivamente, o fluxo e pessoas, bens, energia e informação são um factor de estabilização política e de dissuasão de conflitos. Apesar dos arrufos entre a China e o Japão sobre as ilhas do sul da China, estes dois países asiáticos apresentam as relações económicas mais intensas de todo o sudoeste asiático e quanto maior o nível de conectividade entre eles mais têm a perder em caso e conflito.

Acresce que as cidades também têm revelado uma enorme capacidade de partilha de experiências entre si de forma a resolver os aspectos negativos como a poluição, a criminalidade, a gestão dos espaços verdes, com uma eficácia, flexibilidade e coordenação entre elas superior à dos Estados. Serão pois as cidades a base do crescimento económico ambientalmente sustentável e o garante dos equilíbrios estratégicos entre as nações tão necessário para que esse crescimento se materialize.

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